Apaixonados e malucos

[Nas Artes]

Somos todos apaixonados e malucos, passe a redundância.

Foi assim que ela lhe disse, com aquele ar quase inconsequente com que dizia quase tudo.
Somos todos apaixonados e malucos, passe a redundância.

Ele continuava sem entender. Não a conhecia de lado nenhum e no entanto ali estava, no meio da rua, a ouvir uma desconhecida que lhe apetecia abraçar (casava contigo agora mesmo, raios me partam, que iria eu fazer se o fizesse?, sei lá bem eu quem tu és, mas casava contigo agora mesmo, juro-te).

Foram os malucos e os apaixonados que mudaram o mundo, já viste?

Ele disse que sim com a cabeça (é tão linda, como a quero e não sei quem é, como se chama, o que raios quer de mim, é tão linda e casava-me com ela agora mesmo), quis arrancar para uma frase mas foi interrompido.

Já falei com o senhor Padre e caso contigo hoje às quatro, vens?

Ele gaguejou (sim, sim, claro que sim, é já, agora, imediatamente, e já sabe a tarde, se queres que te diga), a pele ficou de uma cor bastante próxima de um vermelho tórrido, conseguiu apenas perguntar porquê, nem que para isso tenha demorado uns bons dez segundos – talvez mais, que nunca uma palavra tão curta parecera tão interminável.

Abomino explicações, prefiro sensações. Amo-te desde que te vi pela primeira vez. Há cerca de dois minutos, portanto. Já não é motivo pouco para casar, não achas? Casa-se por amor e eu amo-te. Chega-me. E a ti?

Ele ficou sem resposta (os teus olhos, a tua boca, as tuas mãos, a tua voz, quero isso tudo para sempre, que outro motivo pode haver para casar com alguém senão o de querer aqueles olhos e aquela boca e aquelas mãos e aquela voz para sempre?), mas agiu: agarrou-lhe pelo braço e levou-a consigo até à Igreja, não sem antes pagar uns trocos a dois mendigos para assistirem à cerimónia (se há coisa para a qual o dinheiro é útil é para ajudar a amar, foi para isso que ele foi criado, na verdade: como instrumento de amor, que mais?).

Sim, como um louco.

Respondeu, quando o Padre lhe perguntou se queria casar com aquela mulher (vais ser minha, que sorte, vais ser minha, a quem tenho de agradecer a sorte de seres minha?, diz-me que vou já lá, a quem tenho de agradecer a sorte de seres minha?) de quem acabara de saber o nome.

Quando estiver a ficar normal interna-me num hospital para malucos.

Ele disse que sim, claro. Os dois mendigos libertaram uma lágrima, não se sabe se por enfado se por emoção. E o Padre deu ordem para o beijo da praxe.

in “Prometo Perder”, de Pedro Chagas Freitas

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