Ainda te queres casar comigo?

[Na Prática]

Existe um senhor que se levanta de manhã, frita rissóis, faz sandes de couratos e compra um Compal diariamente. Organiza tudo num saquinho e dirige-se à Santa Casa da Misericórdia de Almada. Apressa o passo e tenta chegar cedinho. Tem tanta coisa para ver.

Vai visitar a mulher.
Luísa está internada com demência há 5 anos.

Ele tem 90 anos, ela ainda não chegou aos 80.
Tempo tão escasso para se dizer ainda tanta coisa.

Entra nas instalações e cumprimenta as funcionárias como se fosse lá de casa. Corrige a postura e compõe-se meticulosamente. É tão importante aquilo que vai fazer…

Entra na sala e procura-a com o olhar.
Quando a encontra, atravessa a sala e pergunta-lhe se ela se quer casar com ele outra vez. Diz-lhe que está linda.
Ela sorri e estende-lhe as mãos. Ela, que não reage a ninguém e pouco fala, só quer agarrar-se a ele e dar-lhe beijinhos.

Num desses momentos, tive a sorte de estar presente e captar toda esta ternura que tentei passar através da lente.

A misericórdia pode ser visível sim e, neste dia, aprendi muito.
Aprendi que o amor não se acaba com a memória, ou com a falta dela.
Aprendi que apesar de estarmos frágeis por dentro, podemos sempre “fingir” que tudo está bem mesmo quando não sabemos o que vai acontecer.
Aprendi que uma pessoa que já foi alegre, passa a sua alegria para quem a rodeia, para quem quer perpetuar a realidade da felicidade.

Este senhor ensinou-me isto nesse dia.
Ensinou-me que com 90 anos ainda se pode fazer tudo por alguém, especialmente quando esse alguém já não sabe quem é.

Texto: Mariana Quintela
Foto: Marta Poppe

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