Carta para o meu amigo do coração

[Na Prática]

Poucos textos descrevem na prática o amor da amizade.
Este é um deles.
Fica para ler, é uma descrição maravilhosa.
E depois envia àquele amig@ que é / está/ faz assim. 🙂

“Já olhou para um amigo e pensou como o amigo se fez assim amigo, tão fundamental e inabdicável, eu já e espanto-me sempre, nunca sei como aquele amigo aconteceu mas desejo que me aconteça enquanto eu acontecer, e ele às vezes transforma-se e já não o amamos da mesma maneira, às vezes é de maneira ainda maior ou nem por isso, só assim-assim ou assim-mais ou assim-menos, e depois o amigo vai embora e sabemos que continuamos a amá-lo muito-muito e aos amigos que ficam passamos a amá-los mais-mais, mas voltando:

já olhou para um amigo e pensou no primeiro abraço, eu recordo-me só do último e é este que vou lembrar sempre haja outros ou nenhum, há amigos bons a quem abraçamos pouco ou nada e um amigo é para aproveitá-lo todo e desperdiçá-lo nunca, é agarrá-lo com os músculos que temos e fazer exercício com o amor que lhe sentimos, abram um ginásio de abraços que eu vou já pôr-me em forma, tenho aprendido que abraçamos de menos e sem a lentidão devida, um abraço longo tem as palavras todas que queremos falar mas também as que não tivemos coragem de dizer, até nisso os abraços são nobres e bravos, resolvem a cobardia das coisas caladas, e daí a urgência humilde de um abraço que mostre ao amigo que aquilo é para durar a vida inteira nem que a vida que conhecemos esteja a acabar ali e por isso aperte os seus amigos e demore-se nisso, mas voltando:

já olhou para um amigo e pensou na primeira zanga, eu lembro-me de várias e às vezes esqueço-me de todas porque há zangas pequenas cheias de razão que se vão acumulando numa grande zanga vazia de sentido e depois os equívocos e as desilusões que resultam da soma das pequenas zangas deixam danos irreparáveis na grande zanga sem fundamento, mas depois há uma desgraça que é maior que os desentendimentos sem graça e a fortaleza da amizade reabre os portões, os amigos têm as lágrimas e os gestos e a lealdade e o olhar e a bondade e o perdão e as palavras e sim, os abraços, para se repararem e reiniciarem o ciclo das zangas, e eles zangam-nos tanto porque a amizade é sentimento tão puro e perfeito mas o Homem demasiado impuro e imperfeito para praticá-la mas também o mais necessitado e habilitado para salvá-la, mas voltando:

já olhou para um amigo e pensou como os outros olham para ele, contestam que ele se expresse de determinada maneira e nós achamos que é a da maneira determinada, lamentam que ele fale pouco e nós elogiamos que fala tudo, dizem que ele é demasiado reservado mas nós reservamos-lhe mesas onde dança sobre elas, apontam-lhe aquele erro e outro e mais outro e nós respondemos com aquele acerto e outro e mais outro, eles criticam e nós rebatemos e não criticam por mal é porque tem de ser e nós rebatemos por bem porque está certo, às vezes fala-se pior de quem se espera tudo e contrapõe-se com o melhor de quem sabemos ter tudo, nós temos o privilégio da intimidade e os demais o direito da dúvida, a amizade é informação e informação a menos é incompreensão, as pessoas boas precisam de um site de breaking news sobre elas, última hora: foi um mal-entendido a perceção que têm de mim, e depois uma notificação magnífica no telemóvel: eu sou melhor do que pensas e devias tentar vê-lo porque vou fazer o mesmo contigo, mas voltando:

já olhou para um amigo e pensou como ele o inspira, como ele tem as mesmas palavras que eu e você mas porque sabe escrevê-las melhor é assim:

ele diz liberdade e acreditamos que o fogo não queima,

ele diz paixão e acreditamos que o amor não mata,

ele diz coragem e acreditamos que a dor não fere,

ele diz saudade e acreditamos que a solidão fortalece,

ele diz tristeza e acreditamos que a felicidade existe,

ele diz bondade e acreditamos que os desamparados triunfam,

ele diz lealdade e acreditamos que a franqueza enobrece,

ele diz chora e acreditamos que a força vem,

ele diz luta e acreditamos que a desilusão passa,

ele diz faz e acreditamos que o talento impõe-se,

ele diz orgulho e é o que temos por ele.”
Germano Oliveira, “Carta ao Pedro” in Jornal Expresso.
Texto dedicado a Pedro Santos Guerreiro.
Créditos da foto: Joe Pizzio

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