Liberta-te de querer ser o parceiro ideal

[Na Ciência] [Na Prática]

Decidimos começar a traduzir/adaptar alguns artigos de autores que admiramos e respeitamos para garantir que chegam a todos aqueles que nos seguem. Hoje trazemos um artigo da nossa querida Esther Perel: Liberta-te de querer ser o parceiro ideal.

Não existe ‘um parceiro ideal’. Por isso podes desistir da esperança de te sentires sem culpa, completo todos os dias e completamente independente numa relação. Essa ideia é irrealista e coloca-te num constante estado de não te sentires suficiente, podendo impedir-te de desenvolver uma verdadeira confiança em ti própria/o. Pode mesmo acabar por colocar demasiada tensão no teu parceiro e na relação.

Pensa nisto desta forma: as relações são como um instrumento musical. Se esperas pegar num pela primeira vez e tocá-lo logo como um profissional, vais ficar frustrado e desapontado e podes acabar por te afastar de uma coisa boa – fugindo ainda antes realmente começar.

Para alimentar uma ligação sólida, solidária e de longo termo, procura tomar consciência das tuas falhas enquanto ainda te tiveres a ti e ao teu parceiro em elevada consideração. Começa por te libertar dessa noção desactualizada de ‘comportamentos de parceiro exemplar’.

“Tenho de estar sempre bem”

Estar “sempre bem” ou “fixe” não é um sinal de maturidade emocional ou inteligência. Há coisas que te devem tocar, como se o teu parceiro te for infiel ou caso negligencie a relação. Na verdade, ficaria preocupada se isto não te incomodasse. Algumas situações despoletam algumas reações e a ideia de as pessoas serem “exageradas” ou “loucas” é destrutiva.
Leva-te a agir de forma irreal e fingir que as acções do teu parceiro que te causa dor,  não te incomodam – o que limita uma relação de verdadeira proximidade e conexão.

O que é importante aprender é a regular as emoções. Por exemplo, choras, gritas, ficas zangado… e depois acalmas. Ao fazer isso, estás a dar ao teu parceiro a oportunidade de realmente te conhecer, conhecer o que te incomoda e como tendes a lidar com as tuas emoções. E sim, o parceiro ideal vai continuar a amar-te quando te abrires com ele/ela desta maneira.

“Tenho de ser solidário”

Nos relacionamentos, tipicamente existe um dos parceiros que tende a ser mais cuidadoso, o ombro em que podemos chorar, uma rocha emocional. Ainda assim, estar sempre disponível para os outros pode fazer com que te esqueças de ti. E ser sempre solidário e encorajador pode fazer com que duvides de ti próprio permanentemente “Fiz bem em dizer isto? Fiz bem em fazer aquilo?”.

O grande desafio é perceber como encorajar o teu parceiro, mantendo a tua identidade e individualidade. Em vez de aderires à “ideia do que deveria ser feito”, encontra a tua própria voz como cuidador. Isso pode significar afastares-te quando for demais para ti ou permitires ao teu parceiro ter o seu próprio espaço para resolver os seus próprios problemas.

“Tenho de ter a minha vida perfeita”

Uma pessoa que tenta ser um parceiro ideal acha que deve ter toda a sua vida perfeita, como se isso acontecesse de forma natural. Na verdade, podes cometer erros, explorar quem és, e não ter todas as respostas sobre quem és na verdade.

Imensos clientes meus dizem coisas como, “Quando conheci [o meu parceiro], ambos estávamos preparados. Tínhamos ar de quem sabia o que estava a fazer, quem éramos e para onde queríamos ir… e agora que estamos juntos, descobri que nada disso é verdade.”

Se começas uma relação com a presunção de que sabes tudo, estás-te a colocar numa situação de stress iminente. Os vossos laços vão ser criados em cima de expectativas irrealistas, e o teu parceiro pode ressentir-se assim que reveles o teu verdadeiro ser.

Em vez disso, tenta aprender a sentires-te bem contigo próprio mesmo perante as tuas falhas e apresenta essa versão real aos teus potenciais parceiros. Isto permite-te criar laços assentes em confiança e verdade. E saberás que a outra pessoa gosta e sente-se atraída por ti pelo que realmente és.

Esther Perel

Créditos da foto: Bernard Hermant

 

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