Relações (tele)móveis

(versão portuguesa e, desta vez… espanhola também :))

[Na Prática]

Há pouco mais de um mês vi-me forçado pelas circunstâncias a mudar de telefone. Umas quantas semanas depois, é-me impossível negar a relação aparentemente directa e tão transcontextual entre telemóveis e o que muitas vezes fazemos na nossa vida sentimental, mas também colocar a questão: seremos nós de alguma forma responsáveis pela obsolescência que programamos tanto num como noutro?

Para começar, o mundo parece não estar feito para que vivamos sem nenhum dos dois (telefone ou relação). A sua ausência parece distanciar-nos dos demais e todas as mensagens que nos chegam parecem indicar que a nossa vida seria muito mais fácil se simplesmente aceitássemos esse facto e nos moldássemos a essa realidade. Ao fim e ao cabo, pela mais absoluta necessidade de estarmos ligados ou pela atracção que nos pressupôs em dado momento, quase todos acabamos por cair na esparrela.

O princípio, esse fascinante diabo

Quando por fim nos permitimos o luxo de adquirir o telemóvel novo, somos inevitavelmente levados a guardar umas quantas expectativas – que não seja tão lento ou aborrecido como o anterior, que com este tudo irá ser melhor e que vamos ter muito mais cuidado do que com o último, que tanto nos incomodava, mas pronto, sejamos honestos, também não lhe prestávamos tanta atenção assim. De início, é inegável todo o que cuidado que temos, hesitando durante muito tempo em sequer retirar a película mágica que cobre o ecrã, tamanho o medo que algo de mal lhe aconteça. Certificamo-nos de que o metemos em sítios nobres das nossas carteiras, casacos ou calças, não vá acontecer riscá-lo logo nos primeiros dias. Nada disso, a este não vai acontecer nada disso.

Até os menos dedicados ao campo estão de alguma forma entusiasmados com o potencial do novo modelo, o qual – garantem-nos os de fora – tem mais capacidade, mais memória, maior tolerância, maior rapidez e está mais perto do que procurávamos. Os mais cuidadosos tentam inteirar-se lentamente das suas potencialidades para logo explorá-lo tanto quanto possível. Os mais incautos preocupam-se menos, mas ambos começam pouco depois a rechear o novo aparelho com toda a sua vida – das fotografias às músicas, das aplicações aos e-mails. O modelo funciona na perfeição e, caramba, faz inclusivamente coisas que nem sabia e que estão incríveis.

Do nada, os bugs

O tempo passa e a coisa funciona. Continua a funcionar. Estamos contentes com o que escolhemos e damo-nos conta de que se nos adapta. O tamanho está bem (sempre diferente do anterior, mas para melhor), faz tudo – quase, admitamo-lo – o que procurávamos e um pouco mais e as nossas necessidades estão atendidas. Escutamos os demais falar sobre como os seus são estupendos, mas não fazemos caso, na verdade. Para quê, se, no fim de contas, não me traria nada que já não tenha?

De repente, do nada, surgem os primeiros bugs, esse pesadelo que, depois de tantos filmes futuristas e conceptuais, pensávamos que já estaria resolvido a esta altura. Que aborrecimento, se a única coisa que quero é que funcione como tem estado a funcionar até agora e que não me exija muito trabalho… Com os telemóveis, como em tantas outras coisas (daí o palavrão “transcontextualidade” no início do texto), entendemos estes bugs não como feedback sobre uma pequena situação que necessita de atenção e que poderia ser bem resolvida se actuássemos a tempo, mas sim como uma chatice que poderemos ignorar porque não é assim tão grave, verdade? Afinal de contas, qual é a pior coisa que podia acontecer?

A esta altura, umas quantas das nossas promessas iniciais já não se aguentam muito bem de pé. As fotografias estão por todo o lado, da pasta que nos recomenda o dispositivo ao cartão SD com o qual tínhamos jurado que iríamos ter mais cuidado. Não fazemos qualquer ideia onde temos estado a instalar as aplicações e dos ficheiros é melhor nem falar. O aparelho começa a parecer pouco contente e a funcionar um tudo nada mais lentamente. Que raio, se o comprei precisamente porque pensava que a este não aconteceria nada disso…

O princípio do fim

Acostumamo-nos. Tomamo-lo como inevitável (“acontece a todos”) e, por outro lado, também não estamos dispostos a assumir muita culpa pelo sucedido. Aceitamos que o que temos é um modelo já um pouco desactualizado, ligeiramente caduco, mas pronto, é o que temos e também não vale a pena estar a dar muitas voltas ao assunto. A atenção que ao princípio lhe dedicávamos para que estivesse sempre bem cuidado transforma-se em todo o tipo de sítios nas nossas carteiras, casacos ou calças – riscado ou não já pouco importa. Os bugs vão-se acumulando, mas agora não me dá jeito nenhum andar aos tombos com isto. Como se não chegasse, nem sequer sou especialista na matéria e, lento como está, de certeza que ainda faria pior. Já tem um tempo, a vida é assim mesmo. Além disso, para novo não caminha, verdade?

De repente, começamos a prestar mais atenção ao zumzum externo que costumávamos ignorar. Parece que há agora uns modelos novos que são brutais. Nunca se avariam nem bloqueiam! As características que nos pareciam tão irrelevantes de outros modelos começam a revelar-se tentadoras. E as novas formas e cores também não estão nada mal. Além disso, este já tem tantos bugs e está tão lento que, a sério, pior não poderia ser e, mesmo que quisesse consertá-lo, não saberia por onde começar.

Pastos mais verdejantes

Abrimos um olhito, de vez em quando – “Vamos lá a ver, o que tens agora? Uau, que cena. A sério que tenho de dar uma volta ao texto do meu…” Nos derradeiros estados moribundos, tenta-se dar um jeito para ver se há possibilidade de remover todas as areias (ou algumas, pelo menos) das engrenagens. À segunda ou terceira tentativa, a paciência já não é muita e a perspectiva de que algum dia tudo volte a ser como ao princípio desvanece-se, lenta mas inexoravelmente.

Começamos a ver novos modelos. Já temos bem claro dentro da nossa cabeça que há que promover uma mudança, mas rejeitamos o pensamento ante nós próprios. Caramba, tinha dito que com este as coisas iam ser diferentes. Procuramos um motivo, uma justificação para o fazer, para que a nossa culpa se sinta vigiada perante todas as análises que nós mesmos ou outros possam realizar.

Parte-se um ecrã; dá-se um último crash; a aplicação de que tanto acabámos por depender não funciona com este; até as cores me incomodam. Este modelo claramente não é para mim. Necessito de uma mudança. Vou atrás do outro que vi no outro dia, que me garantem de fora que está tremendo. Tudo será estupendo com este. Espero que, pelo menos, não tenha tantos bugs como o anterior.

Vasco Mota Pereira

Bandeira Espanha

Las relaciones móviles

Hace un par de meses, me vi obligado por las circunstancias a cambiar de teléfono. Unas cuantas semanas después, me resulta imposible negar la relación aparentemente directa y tan transcontextual entre los móviles y lo que muchas veces hacemos en nuestra vida sentimental, pero también colocar la cuestión: ¿seremos nosotros de alguna manera responsables por la obsolescencia que programamos tanto en el uno como en lo otro?

Para empezar, el mundo parece no estar hecho para que vivamos sin ninguna de las dos (móvil o pareja). Su ausencia nos parece alejar del resto de la gente y todos los mensajes que nos llegan parecen ir en el sentido de que nuestra vida se volverá mucho más fácil si simplemente aceptamos ese hecho y nos moldamos a esa realidad. Al final, por la más absoluta necesidad de mantenernos conectados o por la atracción que nos supone en dado momento, casi todos nosotros acabamos picando.

El principio, ese fascinante diablo

Cuando por fin nos permitimos el lujo de adquirir el móvil nuevo, somos inevitablemente llevados a guardar unas cuantas expectativas – que no sea tan lento o pesado como el anterior, que con éste va a ir mejor y que vamos a tener mucho más cuidado que con el último, que tanto nos molestaba pero bueno, seamos honestos, tampoco estábamos tan pendientes de él. Al principio, es innegable como le cuidamos, hesitando durante tanto tiempo en quitarle siquiera la película mágica esa que cubre la pantalla, tamaño el miedo que algo malo le pase. Nos cercioramos que lo metemos en sitios buenos de nuestros bolsos, chaquetas o pantalones, no vaya a ser que lo rayemos luego en los primeros días. Que va, a éste no le va a pasar eso.

Hasta los menos dedicados al campo están de alguna manera entusiasmados con el potencial del nuevo modelo, lo cual – nos lo garantizan desde fuera – tiene más capacidad, más memoria, más aguante, más rapidez, más cercanía a lo que buscábamos. Los más cuidadosos intentan enterarse lentamente de sus potencialidades para luego explorarlo lo más posible. A los más incautos eso les importa menos, pero ambos empiezan en seguida a llenar el nuevo aparato con toda su vida – de las fotos a las canciones, de las aplicaciones a los correos. El modelo va perfecto y, hostia, hace incluso cosas que no sabía y están tremendas.

De la nada, los bugs

El tiempo pasa y la cosa marcha. Sigue marchando. Estamos contentos con lo que hemos elegido y nos damos cuenta de que se nos adapta. El tamaño está bien (siempre diferente del anterior, pero para mejor), hace todo – casi, admitámoslo – lo que buscábamos y un poco más, y nuestras necesidades están atendidas. Escuchamos a los demás hablar sobre cómo de estupendos son los suyos, pero no les hacemos mucho caso, en realidad. ¿Para qué, si al final no me aportaría nada que no tenga yo ya?

De pronto, de la nada, surgen los primeros bugs, esa pesadilla que, después de tantas pelis futuristas y conceptuales, creíamos que ya estaría resuelta a esta altura. Qué aburrimiento, si lo único que quiero es que funcione como ha estado funcionando hasta ahora y no me exija mucho trabajo… Con los móviles, como en tantas otras cosas (por eso la transcontextualidad), entendemos estos bugs no como feedback sobre una pequeña situación que necesita atención y que podría ser bien resuelta si actuáramos con tiempo, sino como un fastidio que podremos ignorar porque no es así tan grave, ¿verdad? ¿Al final, qué es lo peor que podría pasar?

A esta altura, unas cuantas de nuestras promesas iniciales ya no se aguantan muy bien. Las fotos las tenemos por todo lado, de la carpeta que nos recomienda el aparato a la tarjeta SD con la cual habíamos dicho que iríamos a tener más cuidado. No tenemos ni idea donde hemos estado instalando las aplicaciones y de los archivos mejor ni hablar. El aparato empieza a no parecer muy contento y comienza a ir un poco más despacio. Qué rabia, si lo había comprado justo porque creía que con este no iba a pasar eso…

El principio del fin

Nos acostumbramos. Lo tomamos como inevitable (“pasa a todos”) y tampoco estamos dispuestos a asumir mucha culpa por el hecho. Aceptamos que lo que tenemos es un modelo ya un poco desactualizado, un tanto pasado de tiempo, pero bueno, es lo que hay y tampoco hace falta estar siempre dándole muchas vueltas. La atención que al principio le dedicábamos para que estuviera siempre bien cuidado se transforma en todo el tipo de sitio en nuestros bolsos, chaquetas o pantalones – rayado o no ya poco importa. Los bugs se van acumulando, pero ahora no me viene nada bien estar ahí dándoles vueltas. Además, esto ni siquiera es lo mío y, lento como ya, seguro que lo empeoraría. Tiene ya un tiempo, la vida es así mismo. Además, para nuevo no va, ¿verdad?

De pronto, al tarareo externo que solíamos ignorar empezamos a prestar más atención. Parece que hay ahora unos modelos nuevos que son la bomba. No se averían nunca y ¡pillados nunca se quedan! Las características que nos parecían tan irrelevantes de otros modelos comienzan a revelarse tentadoras. Y las nuevas formas y colores tampoco están mal. Además, éste ya tiene tantos bugs y va tan lento que de, verdad, peor no podría ser y, aunque quisiera arreglarlo, ni sabría por dónde empezar.

Pastos mejores

Se abre un ojito, de vez en cuando – “a ver, a ver, ¿qué tienes ahora? Jolín, qué guay. De verdad que al mío le tengo que dar una vuelta…” En los estados moribundos, se intenta dar un arreglo más a ver si hay posibilidad de quitar todas las arenas (o algunas, al menos) de los engranajes. Al segundo o tercer intento, la paciencia ya no es mucha y la perspectiva de que algún día vuelva a ser como al principio se desvanece, lenta pero inexorablemente.

Empezamos a ver nuevos modelos. Ya lo tenemos claro dentro de nuestra cabeza que hay que hacer un cambio, pero lo rechazamos ante nosotros mismos. Al final, había dicho que con éste sería diferente. Buscamos un motivo, una justificación para hacerlo, para que nuestra culpa se quede expiada ante todos los análisis que nosotros u otros podamos hacerle.

Se rompe una pantalla; ocurre un último pilling; la aplicación de que tanto acabamos dependiendo no funciona con éste;  hasta los colores me molestan. Éste modelo claramente no es para mí. Necesito un cambio. Voy a por el otro que vi el otro día, que me garantizan desde fuera está estupendo. Con éste lo voy a tener estupendo. Espero que por lo menos no tenga tantos bugs como el anterior.

Vasco Mota Pereira

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