A dança das cedências

[Na Prática]

Cedência.
Procurei na internet um significado que me ajudasse a colocar em perspectiva esta palavra e não encontrei. Procurei na minha “base de dados interna”, vulgo “cabeça” 🙂 e, recheada de experiências (minhas e dos outros) é aqui que chego: a capacidade que cada um tem de abdicar de exigências / comportamentos / hábitos próprios, em prol do bem estar de outrem, quando tal não interfere com o seu verdadeiro bem estar.
Se é correcto este significado? Não sei… sei apenas que me serve. 🙂

É fácil iniciarmos uma nova relação e, no ímpeto da novidade, do calor da paixão e da entrega, ambas as partes começarem por “ceder”, na ânsia de conhecer, de entrar no mundo do outro, de explorar e fazer parte. Tudo é simples, tudo é “permitido”. É o momento de experimentar limites e perceber (ainda que de forma inconsciente) reacções. E é tão bom desafiarmo-nos a fazer e pensar diferente. 🙂

À medida que o tempo avança, em que as rotinas se começam a instalar, em que existe um tipo de certeza de já fazer parte da vida daquela pessoa, pode ser fácil começar a criar algumas barreiras de entendimento, pois duas vontades / percepções distintas em relação à mesma situação surgem. É quando as rotinas e hábitos pessoais voltam a clamar o seu espaço… 🙂 Estar atento aos sinais que conduzem a esse tipo de desentendimento é importante, para garantir que se torna saudável, em vez de tóxico para a relação.

Em nenhum momento, fazermos as coisas de forma diferente nos leva a deixarmos de ser nós próprios, a não ser quando isso entra directamente em confronto com o que são os nossos valores e crenças mais profundas e isso nos gera desconforto. Nessa altura é bom parar e conversar. 🙂

Dan Savage toca neste tema e, de forma muito simples, aborda o “price of admission“. Uma abordagem clara e objectiva, que incentiva cada pessoa e aumentar o seu autoconhecimento e a identificar os “botões” que tipicamente despoletam algum tipo de desconforto face à atitude / comentário / estilo de vida da outra parte. Aquela altura em que o nosso grau de “exigência” sobe e a palavra “cedência” começa a ser invocada, porque “tem de haver cedências de parte a parte”. 😉

Quando este tipo de argumento começa a surgir, é importante nos colocarmos uma questão: o que gera verdadeiramente o desconforto (meu ou da outra parte), perante a diferença? É uma questão de valores ou apenas de rotina e hábitos? Se tem a ver com valores, percebe se se enquadram nos teus ou se colidem à partida. Conversa sobre isso, e decide com o coração.  Se tem a ver apenas com a rotina que cada um se habituou, pára, respira, sente e expõe o teu ponto de vista. Criem o vosso próprio espaço e rotina, que caminha lado a lado com a rotina de cada um. Tenho a crença de que é disso que são feitos os grandes amores. 🙂

Do not leave yourself to find someone else

Rune Lazuli

Na minha cabeça, quando falamos de cedências, falamos de respeito. Primeiro por nós próprios, por quem somos e pelo que são os nossos valores. Em paralelo, respeito pelo outro e pelo que é importante para si. Se em algum momento conseguirmos dar resposta a algo que para o outro é verdadeiramente importante, ainda que não fizesse parte da nossa maneira de agir, perfeito. Se isso implicar deixar-nos longe de sermos quem somos é só preciso parar, olhar nos olhos e alertar. Por vezes podem estar a fazer-nos um pedido que nem os próprios sabem como nos deixa desconfortáveis. Vale a pena arriscar, falar e amar, sabendo que ao darmos um pedacinho de quem somos, recebemos em nós um pedacinho do outro também. Isto gera confiança.

Quando as duas partes de um casal se conhecem melhor, é a altura em que o verdadeiro compromisso connosco próprios acontece. Se por um lado podemos decidir que essas características não se coadunam de todo connosco e achamos que nos estão a afastar de quem somos, decidimos parar. Está tudo bem, ainda que o início possa ter representado uma linda e inesperada história de amor. Se, por outro lado, ao conhecer características do outro, que não conhecíamos à partida, encaramos isso como um desafio, como uma caixa de surpresas, com aceitação e com transparência, sobre como essas diferenças nos fazem sentir, acredito que isso nos leva a um amor mais profundo.

Será cedência? Não sei dizer, e admito que para mim não é importante a palavra. Apenas acho que faz parte do amor. ❤

[MJL]

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