(nunca se repete o inesquecível)
Nunca se vive de novo o que só se vive uma vez.
E um amor só se vive uma vez. Aquela vez.
A vez em que junto ao carro, naquele meio-dia caótico de trânsito e de buzinas, me pediste perdão – tu que nem me conhecias a pedires-me perdão. E eu sem saber de quê, porquê. E tu a dizeres-me: por só te ter descoberto agora, o que andei a fazer este tempo todo até te encontrar?
Soube que era tua assim que me disseste que eras meu.
E nem precisámos de palavras. Ouvia-se um silêncio intocável por dentro do caos. Agarraste na minha mão e levaste-me contigo, vimos o mar, o rio a entrar no mar, os monumentos todos que já tínhamos visto dezenas de vezes mas nunca um com o outro e por isso nunca os tínhamos visto afinal, a cidade em hora de ponta foi a cidade mais linda de sempre (ainda sinto o mundo parar quando o semáforo fica vermelho, à espera de que, como nesse dia, me olhes nos olhos e me peças perdão sem eu saber porquê; e depois, nesse dia, tu disseste-me “por te beijar sem autorização”, e beijaste-me, tantas pessoas à volta sem saberem que a melhor parte da minha vida estava a acontecer, se soubessem aplaudiriam, tenho a certeza; só a felicidade se deveria aplaudir).
Fomos exactamente o que só poderíamos ser e por isso mesmo o que nunca deveríamos ter sido.
Pedro Chagas Freitas, in Prometo Perder


