Adozinda

[Nas Artes]

Adozinda era translúcida. Nas feições desenhadas ao de leve, as sobrancelhas destacavam-se como dois borrões de uma tinta negra e espessa, como se o pintor que decidiu imortalizá-la em tela oscilasse entre traços finos, por vezes imperceptíveis, tracejados a pincel de aguarela, e largas e descontroladas pinceladas a óleo.

Em pequeno julgava que lhe tinha medo. Sentia o coração bater destrambelhado quando a espreitava escondido por trás dos arbustos e a via sentada no banco baixo, pernas abertas, a peça ao centro, sempre ao centro dos seus dias e da sua vida. Demorei a perceber o que era a peça, o que significava, e porque lhe dedicava Adozinda o empenho concentrado das suas grossas sobrancelhas. Entrevia os contornos rombos de um grande pedaço de madeira, decerto fragmento de coluna vertebral de árvore de nobre existência.

Nos anos em que a própria existência me medrava na pele, aqueles em que não entendia ainda o conceito metafórico de coluna vertebral mas descortinava já o lúbrico impacto da imagem daquelas pernas fortes, rochosas, de mulher fêmea sem macho, entreabertas perante um robusto tronco de madeira que parecia nunca mais ganhar forma, para mais os seios, semi-descobertos pelo recorte do vestido, sobre ele debruçados e para mim apontados, julgava que lhe tinha paixão.

Dos vizinhos ouvia dizer coisas que ora me aguçavam o desejo de romper os arbustos – reais e metafóricos – que sempre me separaram daquela mulher, ora me repeliam os instintos libidinosos. Dela se dizia que enlouquecera, que não mais voltara a si desde que o prometido noivo a deixou, partido para terras do ultramar, e que não acreditando que pudesse o seu homem ter-se lá acometido de paixões, julgava pois que algo o mantinha em apuros, dedicando-se com afinco à tarefa de construir a canoa em que o resgataria de todos os perigos. Perguntava-me várias vezes se alguma vez teria visto uma canoa. Se saberia o que era o mar. Se imaginava como se navegaria. Nenhuma destas questões parecia ensombrar o espírito arremetido de Adozinda. O que seria, então, que a mantinha ligada àquele pedaço de madeira inalterado desde o primeiro momento, que não lhe permitia dar continuidade ao seu projecto, que a conservava de pés descalços presos ao chão, olhar focado no tronco, enquanto imaginaria o noivo à mercê dos mais inesperados riscos?

A curiosidade aguça a paixão, recordo-me de ter lido em alguma dessas revistas que folheava quando acompanhava a minha mãe ao cabeleireiro. Por isso o tempo ia passando e eu cada vez mais curioso por Adozinda. Um dia o olhar desprendeu-se-lhe da peça. Atónito e imóvel, suspendi a respiração e todos os quatro sentidos que se excluem à visão, pois que esse estava consagrado ao milagre de lhe fitar os olhos de gata em tom de âmbar. Levantou-se por instantes, parecia desorientada, e eu desorientado devia estar, pois que desprovido de sentidos e respiração deixei-me descobrir pelo alvo da minha descoberta. Chamou-me só com o olhar, e não foi preciso repetir a ordem, porque o meu corpo, alheio de mim próprio, pronto se adiantou a dar resposta. Devo entretanto ter recuperado o dom de respirar, porque constatei que partilhávamos de um só ar e senti como se aragem mais pura jamais me tivesse penetrado os pulmões.

Perguntou-me se conhecia Noé. Incapaz, num primeiro momento, de perceber a pergunta para lá do simples reconhecimento da sua voz como o readquirir do sentido da audição, num segundo momento, de juntar os sons numa interpretação semântica, e, num terceiro momento, de articular semelhantes ruídos vocais numa resposta com significado, limitei-me a balbuciar “Hã?”. Adozinda parecia desapontada e mais do que eu não estaria. Ao fim de tantos anos a admirar a robustez daquela mulher, apresento-me como um mero asno imberbe. Olhou para mim como se tentasse detectar algum sinal de inteligência cá dentro, e procurou dar-me uma segunda oportunidade “Conheces Noé?”. “Conheço”, ouvi-me responder. “Ainda bem. O caminho vai ser longo, temos muito que fazer.”

Adozinda continua translúcida. Cinquenta anos enrijeceram-lhe as sobrancelhas, as ancas, as pernas, os ombros e os braços, mas as feições mantêm-se em tons de aguarela. Hoje sei que lhe tenho amor. Um amor que me ergue diariamente da cama que partilhamos e que me faz trabalhar ao seu lado na construção de um sonho que tem todas as noites e não a deixa viver os dias. Não enquanto não voltar a Noé.

Ana Vargas Santos

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