Renascer do amor

[Na Prática]
amor-renascer
A minha vida acabou aos 29 anos.
O início da minha história de amor teve três actos muito básicos:
1º – Convite para café;
2º – Encontro no café;
3º – Ida ao cinema.
Divido em três actos porque foi essencialmente o que aconteceu, desafiei-me a mim mesmo com 20 anos a enviar uma sms a uma amiga de escola para tomar um café. Isto numa altura que passava uma má fase da vida por causa de amores platónicos e, para quebrar essas ilusões, decidi romper a rotina.
Depois de uma troca de sms e o respectivo convite para café, nós encontramos-nos. A química foi imediata! Conversamos como se não houvesse amanhã ficando ambos admirados por não haver ninguém nas nossas vidas. Daí a uma pequena troca de carícias nas mãos foi um ápice. Depois desta experiência positiva combinamos uma ida ao cinema. O filme era francamente mau, uma daquelas comédias de pipocas. Mas o que nos levara lá não foi isso, mas sim a companhia um do outro. A meio deu-se o beijo e daí seguiram-se anos de partilha e amor.
Vieram os episódios normais que os casais passam durante uma relação: apresentar aos pais, passar férias juntos, conhecer a família, a primeira vez em que dizem que se amam um ao outro, episódios de ciúmes, saudades mútuas, entre muitas outras coisas que qualquer casal passa, positivas e negativas.
Até que chega o dia em que penso o seguinte: “Esta é a mulher com quem eu quero viver o resto dos meus dias” e vem o pedido de casamento.
Sou um perfeccionista, gosto de pensar sempre nos cenários que podem acontecer antes de passar ao acto. Por norma imagino o pior e escalo até ao mais provável. Gosto de estar preparado. E neste caso tinha pensado em mil e um cenários para a pedir em casamento, até que me lembrei da coisa que seria a mais romântica que se poderia fazer (pelo menos para a geração dos anos 80).
Numa viagem a Paris decidi propor a minha namorada em casamento no topo da Torre Eiffel. Sim, fiz exactamente isso. O episódio mais romântico de um filme ou o mais lamechas… entendam como quiserem. Eu estava mais nervoso do que alguma vez poderia ter estado e o que me valia era o frio que se fazia sentir, onde eu disfarçava o meu nervosismo! Chegados ao topo, ajoelhei-me e ela disse que sim. Seria das coisas mais bonitas que poderia pensar acontecer. Estávamos noivos e com data marcada para casamento.
Tínhamos um ano e meio para preparar o casamento.
Chegamos a Março de 2015, faltava pouco mais de um mês e meio para o casamento e a minha noiva quer ter uma conversa comigo… Eu já imaginava o que aí vinha…
Após alguma discussão, num discurso sem grande sentido para mim, ela argumenta que não era feliz e não queria continuar assim. Imaginam o que é serem considerados a causa da infelicidade de uma pessoa? É o pior sentimento que há, sobretudo vindo da pessoa que amam. Então eu questiono: “Queres acabar? Ok, então acabou!” Acompanhei-a à porta, despedi-me e depois sentei-me.
Caiu a bomba: “A minha vida acabou!”. Este é o primeiro pensamento que nos ocorre nesta altura, foram 3207 dias (8 anos e 4 meses sensivelmente) em que tiveste uma pessoa a quem dedicaste a tua vida em exclusivo e com quem te estavas a preparar para passar a um nível de partilha ainda mais forte. Após isso, lembramos-nos de tudo que nos privamos por causa dela, de quem deixamos por causa dela, viagens, sonhos, planos, realizações… Tudo ficou em segundo plano, porque para ti a felicidade é a felicidade dela. Isto dói, dói imenso.
Felizmente, estamos programados para aprender com a dor, e foi isso que eu fiz. Aprendi! E no fundo quero partilhar essas aprendizagens convosco.
O que aprendi é que de facto a tua vida acaba depois de uma relação tão longa, mas acaba para renascer, como uma fénix das cinzas.
No meu caso eu passei a dizer SIM aos convites, em vez de “vou ver se posso ou não”. Fiz viagens a sítios que apenas imaginava fazer, superei-me em vários objectivos que tinha, despedi-me do trabalho e passei a fazer algo que gostava bem mais, conheci pessoas maravilhosas, namorei com pessoas maravilhosas e pude ser sincero com elas, dizendo que não devíamos seguir.
Dos quase 9 anos de namoro eu posso dizer que aprendi a:
Comunicar – uma relação onde não se comunica é uma relação condenada. Não evitem os conflitos só por medo da reacção que vão ter. Se há amor vocês vão arranjar um meio termo e vão poder falar sobre esses problemas que vos apoquentam. Não deixem nada por dizer. Muitas vezes engoli em seco por não querer discutir/falar com a minha namorada e isso levou a comportamentos tóxicos, como o estar um ao lado do outro sem falar. FALEM!!! Falem de tudo, mesmo que não seja de nada!

Arriscar – Nunca arriscava, tinha um porto seguro para onde ir e sabia que se fosse sempre para lá, ela me acolhia. Mesmo que fosse para ficar encalhado. Imaginem o que é que seria do nosso mundo se o Infante D. Henrique não quisesse arriscar uma escola naval? Ele poderia estar no palácio real sem nada fazer, mas preferiu desafiar navegadores a explorar o mar desconhecido! Estejam numa relação ou não, arrisquem! Façam coisas novas, inovem, digam adeus à monotonia!
Saber quando acabar – Um professor meu dizia no curso de gestão que o gestor deve saber quando fechar a empresa, ou seja tem que “os ter no sítio” para fechar uma empresa. E no caso de uma relação é igual. As pessoas devem saber dizer que acabou e não deixar arrastar um amor tóxico. No meu caso, eu tive imensos sinais da minha noiva para acabar o namoro, ela queria, eu queria, mas não tínhamos a coragem para o fazer. Isso levou ao amor tóxico, onde até o nosso corpo mostra essa toxicidade de pensamentos. Ficamos com acne, magros, cabelos fracos, cansados, etc. Não existe essa necessidade, sejam sinceros e acabem! Sigam caminhos distintos para recuperar a felicidade.

Ver com olhos de ver – Muitas vezes me senti com duas palas nos olhos, em que parecia só olhar para a frente. Temos que observar todos os sinais e todas as reacções. Assim podemos agir de forma preventiva ou mesmo reactiva. Desde que não deixemos arrastar as situações. Tive imensos sinais para acabar a relação, mas o meu egoísmo e a minha competitividade não me deixavam analisar os sinais e determinar a melhor acção a realizar.

Ser Feliz – Ser feliz é extremamente fácil, nós é que complicamos. Seja porque vamos pelo julgamento dos outros, ou porque há alguém que poderá não gostar de algum acto nosso. Pensa apenas em ti! Se fores feliz os outros também o vão ser! Já viram aqueles vídeos em que uma pessoa começa a rir à gargalhada e os outros acabam por seguir? É contagiante! Só depois de seres feliz é que poderás ser feliz com outra pessoa.
Saber dar – Eu era daqueles que dava de tudo à minha noiva, tentava agradar com objectos físicos – prendas, flores, jóias, etc, mas nada disso era necessário. A melhor prenda que podes dar é o carinho, a atenção e o amor. Havendo isso tudo o resto é supérfluo.

Amar – Aprendi a amar, sim amar. Naquela altura, tinha um amor que podia ser resumido como acomodação. Ou seja fiquei acomodado a uma pessoa e a um sentimento. Banalizei a palavra “amo-te”. Amor é ser feliz com outra pessoa e sentir que existe um equilíbrio entre as duas partes. Imaginem uma balança e os dois lados têm de estar em equilíbrio, agora pensem que a balança é a relação e os pesos somos nós na relação. Para que se mantenha equilibrada tem que haver entrega de ambos os lados.

Ouvir os amigos e familiares – São eles que te conhecem, dá ouvidos ao que eles te dizem. Lembra-te que apesar de amares uma pessoa, eles conhecem-te quase desde a tua formação. Eles sabem o que gostas e o que não gostas e podem ajudar a ver algo que tu não estejas a ver.

Sê quem és Imensas vezes me disseram que eu não era o mesmo. E era verdade, eu moldei-me a outra pessoa e adoptei tudo o que ela queria que eu fosse. Na verdade tu tens que ser quem és. O processo de moldagem é algo que acontece dos dois lados e deve ser o mais ligeiro possível… Vais passar por processos de mudança e tens que manter a tua identidade. Só assim consegues manter o amor no ar. E não deixar de te amar!
No fim de tudo, eu aprendi a viver a vida! A deixar a raiva de lado e focar-me em mim. Sentia-me totalmente desvalorizado após a separação, um inútil sem amor próprio. Então, arregacei as mangas e pensei: “Valoriza-te, ama-te e vê que só tens a ganhar!”
Agora olho para a frente com a vontade de aprender mais e de conhecer mais países, pessoas, experiências. Possivelmente mais tarde irei ter alguém que quererá partilhar comigo tudo isso, mas aí eu sei o que quero e saberei o que preciso para continuar feliz.
A minha vida acabou aos 29 anos, mas recomeçou logo de seguida com um melhor sentido. Sem ter que deixar de ser eu mesmo.

Luís do Caminho
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