Vulnerabilidade e entrega ao amor

[Na Prática]

coracaoDeixar que nos vejam, sermos verdadeiros e assumirmos os nossos sentimentos, assumirmos também os próprios erros e seguir em frente são atitudes que nos ajudam a viver de forma amorosa, especialmente connosco próprios… “A coragem de ser imperfeito” é um livro de Brené Brown, uma investigadora das áreas da vulnerabilidade, vergonha e coragem.

Hoje decidi escrever sobre este livro para o amor “na prática”, por dois motivos. Primeiro, porque praticar vulnerabilidade é respeitar a nossa verdade, chegar mais perto da nossa essência, exercendo auto compaixão. Segundo, porque acredito que dar as boas vindas à nossa vulnerabilidade permite-nos uma verdadeira entrega emocional e amorosa. E esta entrega, se vier acompanhada da inevitável noção de incerteza, de possibilidade de fracasso, de como ultrapassar o medo – e vergonha no fracasso – com coragem, torna-se ainda mais poderosa.

A coragem de ser imperfeito e de aceitar a imperfeição do nosso mais que tudo é uma das coisas que reforça a ligação num casal – acreditamos nós, por aqui.

Neste livro, Brené começa por relacionar o medo de mostrar vulnerabilidade, com uma incapacidade de sentir felicidade, ou de sentir que se vive uma vida plena. Ela chegou à conclusão que as pessoas que afirmam e mostram viver uma vida em pleno, que se sentem felizes, têm em comum esta característica: vivem a sua vulnerabilidade.
Escreve sobre o que a maior parte das pessoas faz para se proteger de mostrar vulnerabilidade e o medo da mesma, os danos colaterais de fazer isto… e o que fazer para “ousar ser grande”, transmutando qualquer medo para uma energia de coragem.

Se calhar és uma das pessoas que acham que não sente este medo, e pensas que não é para ti. Mesmo que sintas isso, lê. 🙂 Também é para ti, este artigo. É que muitas vezes podemos fazer isto de forma menos ecológica. Por exemplo, é fácil encontrar pessoas que se consideram mais vulneráveis refugiarem-se, no “dar sempre” ou no exprimir das suas emoções permanentemente sem, realmente, chegarem a “ousar ser grandes”.

Medos em cadeia
Brené exalta o medo de não ser suficiente como aquele que está na base para o medo de ser vulnerável, e faz uma ligação à vergonha.
O medo de não ser suficiente (ou cultivo da escassez) num relacionamento pode mesmo infeccionar a interação do casal…
A escassez cultiva-se quando pensamos e sentimos algumas destas ideias:
“Nunca sou suficientemente bom/boa
Nunca sou suficientemente perfeit@,
Nunca sou suficientemente magr@/atraente,
Nunca sou suficientemente poderos@
Nunca sou suficientemente bem sucedid@
Nunca sou suficientemente espert@
Nunca sou suficientemente segur@”
Ou seja: cultivamos escassez quando nos focamos na falta, valorizamos a falta, pensamos “nela” muitas vezes.

A sensação de escassez vem ao de cima, quando sentimos ou praticamos:
Vergonha: medo do ridículo e depreciação (praticada por outro ou por nós próprios). Por exemplo, se cometemos um erro ou surge um evento menos positivo que é percebido como errado, em que chegamos à ideia (errada e pouco potenciadora) de sermos insuficientes. Numa discussão, por exemplo, quando há aquele que envergonha o outro com a sua “razão”.
Comparação pejorativa: existência de ideais e comparação com os mesmos, com surgimento da sensação  que estamos e vamos continuar longe deste ideal (de pessoas, de formas de agir, etc.).
Distanciamento: Medo de correr riscos, de exprimir ideias; falta de atenção no casal e consequente programação para a distância – quando a falta de atenção de um influencia o outro e vice versa, cria-se distanciamento.

Por outro lado, as pessoas que vivem de forma plena, não sentem abundância ou sensação que tudo é perfeito. Sentem que são suficientes e merecedores. Se erraram, está tudo bem, pois fazem o melhor que podem, sem fugir à sensação de vergonha. Ultrapassando a vergonha e tentando de novo, estas pessoas não se identificam com os seus resultados. Sabem que são muito mais do que qualquer resultado e que este não os pode definir. Assim exercem a sua vulnerabilidade com coragem.

Os mitos da vulnerabilidade
Brené desconstruiu 4 Mitos ou ideias falsas pré concebidas sobre a vulnerabilidade.
São estes: 1 – Vulnerabilidade é fraqueza; 2- A vulnerabilidade não é “comigo”, 3- Vulnerabilidade é pôr tudo a nú, 4 – Conseguimos fazer tudo sozinhos.
No terceiro mito, além de mostrar porque é que não temos de dizer tudo a “toda a gente”, é abordada a questão da confiança – um dos pilares de uma relação saudável e presente. Também aqui é descrito como o pior tipo de traição como aquele que corrói a confiança aos poucos: Trata-se daquilo que é denominado como a “traição do distanciamento”. Esta tem a ver com negligência, deixar andar, deixar de prestar atenção ao outro. Às vezes surge por pura simples falta de atenção ou distração. Outras, pode ser por retaliação. Cada casal tem as suas dinâmicas, mas se o objetivo é permanecerem juntos, será boa ideia utilizar esta estratégia?

Especificamente aqui, o distanciamento é corrosivo, porque pode desencadear a vergonha, o medo de não ser suficiente e até de não ser amado.
Naturalmente, não é no primeiro episódio que a confiança se destrói. Também não é com um episódio positivo que se constrói… Mas aos poucos, de falta de atenção em falta de atenção, o relacionamento sofre. Porque a pessoa sofre.

Resiliência à vergonha: a coragem
Depois de escrever sobre a vergonha e perfeccionismo – sendo o perfeccionismo visto aqui como potenciador de vergonha e inibidor de criatividade, a investigadora dá pistas de como a resiliência à vergonha se processa.
Explica como a coragem, tal como em todos os processos, se torna a nossa grande amiga. Há uma passagem deliciosa que diz assim, a propósito de um evento que corre menos bem (em que há “fracasso” ou insucesso.): “Se nós falarmos com a vergonha, ela começa a definhar. A resiliência à vergonha é a capacidade de dizer: Isso magoa-me. Isso é decepcionante, até mesmo devastador. Mas o reconhecimento, a aprovação alheia não são os valores que mais me motivam. O meu valor é a coragem e acabei de ser corajoso. Podes ir embora, vergonha.” (…) Não podemos abraçar a nossa sensação de vulnerabilidade se estivermos a sufocar a nossa sensação de merecimento e conexão.”

De forma muito prática, são apontados quatro passos para cultivar resiliência à vergonha. São estes:
1. Reconhecer a vergonha e compreender o que a desencadeia – Fisicamente, o que acontece? E na nossa mente, que tipo de pensamentos aparecem quando sentimos vergonha?
2. Praticar uma consciência crítica – Funcionar um pouco como advogado do diabo, procurando novos significados para o que está a acontecer.
3. Estabelecer contacto – Assumir, partilhar a história – a empatia conduz à “cura”
4. Falar da vergonha – Dizer como nos sentimos e o que precisamos

“Há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.” Provérbio

Vergonha nos relacionamentos
A vergonha faz-nos sentir que não somos merecedores de amor e pertença – as necessidades primordiais de todo o ser humano.
Brené tipifica alguns comportamentos por género. Refere, por exemplo, que as mulheres sentem vergonha quando se sentem ignoradas e pressionam o cônjuge com críticas, e que os homens sentem vergonha quando são criticados por errarem e têm tendência para se fecharem ou tornarem-se agressivos. Tipificando ou não os comportamentos, a promoção de vergonha através de julgamento, num relacionamento, é letal.

O que torna a vergonha especialmente poderosa neste contexto, é o facto de o nosso cônjuge ser alguém que sabe muito sobre nós, que supostamente nos conhece. É uma pessoa muito próxima. Por isso mesmo o impacto das acções desta pessoa é tão alto. Muitas vezes dizemos ao outro palavras bonitas. E o que fazemos? Brené convida-nos a exercermos vulnerabilidade, mostrarmos a confiança, afecto. Praticar amor.

Há muitas outras mensagens que valem a pena ser lidas neste livro e que influenciam a forma de praticarmos amor. Sobre como os papéis sociais conduzem à vergonha, sobre como homens no mundo ocidental sentem a vergonha (na ideia de “um homem não chora” e outras do estilo), sobre como as mulheres sentem também culturalmente uma pressão adicional, e sobre o distanciamento que se cria numa sociedade muito virada para as aparências…

Independentemente do “grau” de vulnerabilidade que costumamos demonstrar, do nível de felicidade que dizemos sentir, este livro ajuda-nos a perceber que não estamos sozinhos. Faz-nos sentir ainda mais humanos, mais ligados e ajuda-nos a repensar uma série de estratégias “gastas”, que não funcionam na nossa vida. E estas conclusões são possivelmente o primeiro passo para uma mudança.
E, muito importante, um relacionamento é feito de duas pessoas mas é sempre bom lembrarmo-nos que a única que podemos dirigir, fazer agir, somos nós próprios.

Que esta seja uma boa altura para mostrares a tua vulnerabilidade, com a tua verdade, as tuas escolhas, o teu amor! ❤ 🙂

[BC]

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4 thoughts on “Vulnerabilidade e entrega ao amor

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