Do outro lado

[Na Prática]

Temos escrito sobre diferentes tipos de amor. Hoje falamos de um que é cada vez mais comum e que, provavelmente, muitos de nós já terá tido a oportunidade de experimentar por uns tempos, viver intensamente, imaginar como seria ou, simplesmente, recusar a sua existência. 🙂

Falamos do amor à distância.

Quando falamos desta distância, podia ser apenas a distância de sentimentos, a distância de timing, mas não. Aqui falamos da distância física. Aquela que coloca o nosso Amor fisicamente tão longe, seja numa cidade do mesmo país, seja num país diferente, que temos de encontrar alternativas para que a proximidade dos unnamedcorações seja suficiente. Assumindo que as coisas se tornam mais fáceis quando podemos simplesmente pegar num carro e ir ter com alguém, vamos falar daquelas relações que nos separam por um avião. 🙂

Tenho conhecido cada vez mais pessoas que têm uma relação neste registo. Às vezes por um curto espaço de tempo, outras por um período limitado (ainda que longo) e outras em que a mudança é permanente (e vamos pensando nas alternativas de voltar a juntar-nos para uma vida). Muitas outras já tiveram e, por um ou outro motivo essa relação acabou. Vamos focar-nos nas primeiras, pois no segundo exemplo, raros foram os casos em que a relação acabou por causa da distância. Terá acabado por um sem número de razões: ausência de um objectivo de vida comum; ausência de confiança; ausência de clareza e partilha de expectativas; ausência de comunicação clara e livre de subterfúgios, e muitas outras, em alguns casos.

“Os muros existem por um motivo. Dão-nos a oportunidade de mostrarmos até que ponto desejamos alguma coisa.”

Randy Pausch

Resolvo falar deste tema pois tem aparecido à minha frente, com alguma frequência, pelos mais diferentes motivos e vias. Surge em conversa sobre a fragilidade que nos traz este tipo de amor, sobre a alegria que nos aquece, sobre as surpresas que gera e sobre a dinâmica do casal que o enriquece. Este é aquele tipo de amor que nunca imaginaria ter e que, nos dias que correm, sei ser possível.

Alguns cuidados que vamos identificando, podem ajudar a alimentar este tipo de amor:

  • Alinhamento de expectativas – para isto é importante conversar. Conversar durante muitas horas, às vezes… e pensando bem, o que temos como principal veículo de comunicação nestas relações? A palavra. 🙂
  • Confiança – continua a ser uma crença para mim que, acreditar no outro e no amor que nos mostra é a maior prova de confiança que podemos dar e ter. Se for mais fácil apresentar @s amig@s num jantar, com a sua companhia por skype, há que fazê-lo. Afinal de contas, se ele estivesse presente, estaria (muito provavelmente) ali connosco. Aproximá-l@ de quem faz parte de nós é a prova viva de que @ integramos na nossa vida, apesar da distância.
  • Atenção – se numa relação em que a presença física é normal, esta atenção é importante, numa relação à distância torna-se essencial. Se sinto que algo não está bem do outro lado, porque não perguntar, em vez de “ignorar” os sinais? Se me sinto desconfortável com alguma coisa, porque não dizer, partilhar? Tantas vezes assumimos coisas como óbvias e quando conversamos, somos fortemente surpreendidos pela outra interpretação.
  • Continua a ser quem és – quando te apaixonaste por esta pessoa, apaixonaste-te por quem ela é e ela apaixonou-se por quem és (com todo o contexto que envolvia cada um). Nas relações à distância pode dar-se o caso de sentirmos que todos os momentos disponíveis devem ser no telefone / skype com esta pessoa saturando, em alguns momentos a relação pela, tão familiar, rotina. Quando nos permitimos estar com outras pessoas, fazer as coisas que sempre nos deram gozo, ler os livros que nos enchem a alma, trazemos mais histórias para contar, partilhar e reavivar experiências.
  • Planear – serei  uma das pessoas que mais aversão tem a planos demasiado estruturados, excepto neste contexto. 🙂 Para aumentar a nossa proximidade física é importante encontrar momentos para estarmos juntos. Isto implica, seguramente, uma boa gestão de agenda (quando a vida profissional e familiar assim o exige) e financeira, para garantir que encontramos viagens a um bom preço. Definir quando nos podemos encontrar e onde é uma mensagem de “esperança e ternura”, para os corações que esperam ansiosamente o próximo toque.
  • Conhecer mundo – esta será uma das maiores vantagens “colaterais” de ter uma relação à distância. Por vezes as distâncias são tão grandes que temos de ser verdadeiramente criativos para nos encontrarmos nalguma cidade, por um preço razoável para ambos. Adoro a diversidade de contextos que isto nos consegue proporcionar. 🙂
  • Surpreender – às vezes não conseguimos estar juntos com a regularidade que gostaríamos, é verdade. Mesmo assim, há cuidados, surpresas, cartas, músicas, carinhos via CTT, promessas de momentos a dois que nos podem aproximar cada vez mais do nosso Amor, quanto mais não seja pela contagem decrescente conjunta, até ao próximo momento.
  • Respeitar – como nas relações em que existe presença física, existem alguns momentos em que precisamos de momentos só nossos. Está tudo bem. Quando o amor existe isso é maior do que a fragilidade que alguma ausência momentânea (de resposta a mensagens ou contacto skype) nos possa trazer. Avisar o outro que precisamos desse espaço para nós, pode ser muito positivo, pois aumenta a probabilidade de ele reagir de forma confortável, com amor e livre de ansiedade, a isso.
  • Despedir com amor – às vezes a mágoa do adeus, deixa-nos distantes / tristes ou zangados nos últimos momentos em que nos encontramos. A vontade de voltar é tanto maior quanto maior for o amor com que nos abraçamos neste “até já”.

E sim, cada despedida deixa um aperto no coração. Porque durante um fim-de-semana ou uns dias ele esteve ali, presente, a tocar-nos e a fazer valer a sua ausência. Depois disso o aperto começa a ficar cada vez mais solto… sobretudo quando percebemos que a vontade e expectativa para o próximo momento é mútua e quando percebemos que as conversas e dinâmica que temos à distância de uma chamada é tão próxima como se estivéssemos presentes.

Viver uma relação à distância é possível, sim. Tenho tantos amigos que o fizeram e encontraram o seu ponto de equilíbrio. Tenho conhecidos que correm o mundo com um sorriso no rosto e uma mochila carregada de amor, vejo desconhecidos que simplesmente querem dar tudo para que corra bem.

O amor é lindo de todas as formas… e o investimento que fazemos nele torna-o ainda mais apetecível.

Há uns tempos atrás cruzei-me com um desconhecido que ia ter com a sua namorada de há dois anos. Ele vive em Vigo e ela em Nápoles. Encontramo-nos numa das ligações que ele estava a apanhar (Porto – Roma), para chegar a ela. Era uma das ligações… já tinha feito umas horas valentes de viagem (de diferentes meios) e faltavam umas quantas outras… As condições financeiras podem não ser as melhores, mas fazem isto recorrentemente, ora ele, ora ela.

Quando lhe perguntei como conseguiam fazê-lo, ele disse apenas: “Quando vale a pena, tudo é possível“.

Acrescento: quando vale a pena e queremos, tudo é possível. ❤

[MJL]

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