Quero que saibas

[Na Prática]

Gosto dos cantos das torradas de manteiga. Quando, por algum motivo, partilho uma torrada com alguém, acho curiosa a gentileza de deixarmos ao outro a parte do meio da torrada (porque a maior parte das pessoas gosta dela – pelo menos na minha realidade). Eu também como o centro. Gosto. Ainda assim, prefiro as margens. 🙂

O mais curioso em todo este processo é que raramente ouço alguém a perguntar, simplesmente: “Qual é a tua parte preferida da torrada?”. Limitamo-nos a assumir o que o outro gosta, por um padrão que críamos ou a que nos habituamos.

Quantas vezes os teus actos e palavras são reflexo directo do que pensas e desejas? Ou, passas a maior parte do tempo a agir em função do que pensas que o outro deseja? Mais confuso ainda… do que pensas que o outro deseja que tu desejes? 🙂

As expectativas tornaram-se um foco significativo da minha atenção, desde há uns anos para cá. Por vezes dava comigo a desejar que o outro adivinhasse (por artes mágicas, percebo hoje), o que eu desejava, imaginando que o resultado de algo, seria obviamente o que eu queria. Ora… se tal não era transmitido por palavras, qual a probabilidade do que eu queria vir a acontecer? Acho que sabemos… 😉

Quando não acontecia o que eu desejava (e era algo realmente importante para mim), dava comigo a ficar desapontada, fechada e, em muitos momentos, distante. Tudo isto porque no momento certo, depositava a minha vontade no universo e me esquecia de o fazer a quem estava ao meu lado, numa expectativa romantizada de que estivéssemos tanto em sintonia que quase não precisássemos dizer o que gostávamos que nos fizesse, desse ou onde nos levasse. O que, ironicamente, nos podia afastar mais do que aproximar.

Quando olho à minha volta, percebo que este é um tema de todos para todos e acho engraçado perceber o que podemos perder nas relações por, de forma simples e directa, não dizermos o que desejamos, quando e onde. Não se trata de desejos de uma vida. Não é isso. Trata-se aqui de coisas simples, corriqueiras, do nosso dia-a-dia. De um jantar que desejávamos romântico e, quando damos por ela, estamos numa mesa com mais 4 pessoas. De um final de tarde à beira-mar, que se transformou numa ida ao supermercado. De um dia “longe do mundo”, passado em convívios sem fim. De um jantar especial, feito pela pessoa especial, transformado em “qualquer coisa para despachar”. Da comida que nos apetecia mesmo naquele dia, substituída pelos restos do dia anterior. De umas férias que queríamos românticas (em determinados moldes) e que quando damos por ela, saindo delas ainda mais distantes da pessoa com quem nelas entramos. E por aí fora…

A verdade é que, de cada vez que não clarificamos as nossas expectativas à partida, e algo não acontece como esperávamos, ficamos como que com um pedaço a menos no coração. Sobretudo se não estamos preparados para lidar com a surpresa, a possibilidade de outra verdade ou realidade que nos é dada pela nossa metade, que pode ter um potencial gigante para ser ainda melhor do que desejávamos, mas não é o que desejávamos… 🙂

A sensação que pode dar é que sempre que o outro não vê o que queremos, mostra falta de atenção, falta de sensibilidade para connosco, nos tem pouco carinho. Mas isso é só uma questão de ego, já pensaste nisso? 🙂 Já pensaste o quão injusto é esperarmos de alguém algo que nem a pessoa sabe que esperamos?

Imaginas que seria tão mais fácil simplesmente partilharmos o que nos vai na alma, com transparência e amor, aumentando a probabilidade de vermos a nossa vontade concretizada, sem subterfúgios e esperanças escondidas de que o “inesperado” aconteça. Se queres que aconteça: PEDE! 🙂

Why complicate life-

Este pedido não é garantia de concretização, a verdade é essa. Mesmo assim abre espaço para a discussão. 🙂

Quando nos expomos assim, aumentamos a probabilidade de ganhar também mais flexibilidade de escolha, a dois. Vejamos… se nós e a nossa metade o fizermos de forma genuína, primeiro: temos mais escolha e isso faz com que o universo da nossa relação seja recheado de possibilidades. 🙂 Segundo: deixa de existir aquele espaço cinzento do “o que é que eu devia ter dito ou feito, que não fiz”, anulando os abismos nas relações.

Nos dias que correm prefiro a verdade imediata, a transparência de dizer que sim ou que não no momento certo, de propor o que me apetece quando sei exactamente o que é e a abertura de aceitar outras sugestões, pois isso me dá mais espaço ainda para a descoberta (de mim e do outro) e para ser o meu melhor reflexo de mim.

E tu… o que queres que saiba? 🙂

[MJL]

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3 thoughts on “Quero que saibas

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