A magia de receber, cuidando

[Na Prática]

Adoro cuidar. Será talvez uma das coisas que mais me completa.

Quando há uns tempos atrás me apercebi disso, comecei a pensar o porquê dessa vontade de dar, cuidar (às vezes esquecendo-me de receber). Facilmente percebi que o ganho secundário de dar, para mim, está na felicidade de ver @ outr@ bem e, de certa forma ter contribuído para isso. É uma sensação que me preenche. Mesmo assim, não é a mais importante. Sim, todos os nossos comportamentos têm um ganho secundário. Neste caso, ver a felicidade do outro – o coração recheado de carinho, independentemente de ter contribuído para isso ou não é o que me enche verdadeiramente o coração. 🙂
Percebi a dada altura que esta vontade de dar me inibia, por vezes, de receber em pleno. Estava tão preocupada com o bem-estar d@ outr@ que me esquecia, muitas vezes, do meu próprio bem-estar.

Escusado será dizer que, naturalmente, também isto impactava no bem-estar do outro. Simples e engraçado… Nem sempre óbvio. 🙂

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Comecei então a prestar mais atenção a mim, ao meu querer, ao meu receber.
Percebi de uma forma natural, carregada de boa vontade e disponibilidade que para “receber” mais do outro tinha primeiro de saber e querer receber de mim própria. Foi e tem sido um processo. Muito interessante e enriquecedor, por sinal.

Passei então a fazê-lo de forma mais consciente. Como? Cuidando de mim, como cuido dos outros.

Valorizando cada momento comigo, respeitando os meus humores, aceitando-os pois mesmo parecendo descabidos, todos eles chegam com um propósito. Permitindo-me estar ou não estar presente se tenho ou não vontade, não o fazendo apenas pelo outro. Cozinhando para mim como se estivesse a fazê-lo para um grupo de amigos do coração. Aproveitando genuinamente a minha presença e tudo que tenho para dar. Estando e viajando sozinha, pois nestas circunstâncias conseguimos conhecer a nossa verdadeira essência… os receios, as vontades, os verdadeiros gostos, o que nos deixa verdadeiramente felizes e o que nos tira da nossa zona de conforto. Acima de tudo a nossa capacidade de improviso e de dar e receber mesmo a quem não conhecemos. Nestes momentos percebo que coisas que para mim sempre foram inquestionáveis o são, afinal. E sinto-me ainda mais completa. 🙂

Acredito, nos dias que correm, que toda a gente devia experimentar isto, de estar consigo própri@, com qualidade, sempre que possível. Para quem gosta de dar, é uma excelente forma de o fazer ainda melhor, de dentro para fora. Como tudo deveria ser, sem esperarmos encontrar no outro ou em coisas externas a nós, a nossa felicidade. 🙂 Em última instância, quando amamos verdadeiramente alguém, esse amor pelo outro não deveria nunca sobrepor o nosso amor por nós próprios. Pessoalmente não encontro sentido em permitir que as vontades de outrem, suas expectativas, decisões, “imposições” se sobreponham às minhas (se estivermos em extremos opostos).

Creio que, por vezes, os “cuidadores” sentem que a melhor forma de cuidar / dar é “abdicarem de si”, em detrimento do outro e das suas escolhas ou “escolhas da vida”, que ela (vida) se encarrega de fazer por nós (como se não tivéssemos qualquer outra opção disponível). O que sinto verdadeiramente? Que é mesmo importante sermos felizes connosco para podermos então abraçar de corpo e coração inteiro o outro e a sua vontade de nos amar. Será, genuinamente, o melhor que podemos fazer para o cuidar, também. 🙂

“Look, I’m going to find a way to be happy, and I’d really love to be happy with you, but if I can’t be happy with you, then I’ll find a way to be happy without you. ”
Randy Pausch

Como é que a vontade permanente de dar (esquecendo-nos de receber) pode então impactar na relação com o outro? Toldando a simplicidade de receber. Como? Desenganem-se se acham que quem dá não gosta de receber. Não é isso. 🙂

É óptimo receber. Por vezes torna-se estranho, talvez por não estarmos a ser nós os “cuidadores”, o que faz com que a reacção possa ser de estranheza e, por vezes de pseudo-fuga. Nem sei bem como chamar-lhe, confesso. Quando alguém quer cuidar de nós como tipicamente o fazemos é verdeiramente reconfortante, no entanto talvez sintamos que o podíamos / devíamos estar nós a fazer. É o espaço entre o querer receber e não querer esgotar o que têm para nos dar. Será receio de não voltar a tê-lo? Não sei… sei que a dada altura (por doce insistência de amores da vida) me habituei a receber mais. A deixar que cuidem também de mim, pois podia eu própria estar a inibir o outro de mostrar o seu amor e isso é, digamos, esquisito, sobretudo porque gosto verdadeiramente de ser, também, cuidada.

Creio que todos temos espaço para tudo e o equilíbrio perfeito será termos mesmo consciência. Primeiro de nós próprios e depois do casal. Sim… provavelmente existirá a tendência para um dar mais do que o outro (o que quer que isso signifique). E está tudo bem, quando essa dinâmica é tudo o que precisam. Ainda assim, é importante olharmos para o que cada um coloca de si e como o pode ter de volta, como uma lei natural do universo. 🙂

Continuo com uma certeza, com todo o conhecimento e harmonia que tenho de mim e comigo própria: gosto mesmo muito de cuidar. Quando um amigo me perguntou há pouco tempo “e de ti, quem cuida?”, a resposta foi-me simples, óbvia e directa… todas as pessoas por quem me preocupo e cuido, me cuidam de volta. Mesmo sem saberem. É uma espécie de “favores em cadeia permanente”. Adoro isso. Para além do mais, mesmo que não se apercebam, o meu “ganho secundário” entra em acção e lá estou eu, feliz, por ter cuidado de outro alguém.

Então e tu? Coloca-te no centro do teu coração. 🙂 Ouve-te. Sente-te. Permite-te ser quem és e fazer as tuas escolhas. Vais ver que lá encontras espaço para o outro. O melhor de tudo é que quanto mais te colocares no centro, mais espaço lhe vais dar… e com isso, te vais permitir receber também.

Vale a pena experimentar. 🙂

[MJL]


Fotografia: Maria João Lambertini @ Lake Bled, Slovenia

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2 thoughts on “A magia de receber, cuidando

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